Ministério da Saúde confirmou relação entre vírus e a microcefalia ( uma doença em que a cabeça e o cérebro das crianças são menores que o normal para a sua idade, influenciando o seu desenvolvimento). Segundo dra. Carlolina Starling, estudos apontam que o Zika chegou ao Brasil através da Copa do Mundo de 2014.
Uma corrida contra o tempo. O Brasil tem aproximadamente dois meses para combater os focos do Aedes aegypti. O risco é maior em gestantes depois da associação do Zika vírus à transmissão da microcefalia. O Ministério da Saúde confirmou no dia 28 de novembro a relação entre o Zika e o surto de microcefalia na região Nordeste. O achado reforça o chamado do MS para uma mobilização nacional para conter o mosquito transmissor. O Aedes é responsável pela disseminação da dengue, zika e chikungunya. O êxito dessa medida exige uma ação nacional, que envolve a União, os estados, os municípios e a toda a sociedade brasileira. O momento agora é de unir esforços para intensificar ainda mais as ações e mobilização.
Para a dra. Carlolina Starling, ginecologista e obstetra de Campo Belo (MG) apesar do momento de alerta para a nova doença, a mídia não tem explorado como deveria o assunto. Falta informação e por isso as gestantes (classe mais preocupante) – depois da divulgação da relação entre o vírus e a transmissão da microcefalia, não tem feito tantos questionamentos como se deveria. De acordo com a médica, o indicado é o uso de repelentes e evitar áreas de risco. Em entrevista ao Diariocampobelo.com a obstetra fala sobre a doença; os meios de transmissão; como se chegou ao Brasil e ainda os meios de se evitar, além das consequências.
A especialista também abordou sobre a comprovação de que o zika aumenta os riscos de microcefalia em fetos e da Síndrome de Guillain-Barré em quem contrai o vírus. Uma síndrome rara onde o tratamento é caríssimo. Mas, como os estudos relacionados ao zika são escassos — existem no mundo cerca de 200 publicações científicas, contra mais de 2.500 sobre chikungunya e mais de 14.500 sobre dengue.
Diariocampobelo.com: Dra. Carolina está confirmado a associação do Zika vírus com a microcefalia?
Dra. Carlonina Starling: Isso mesmo. Já está confirmado esta associação nos fetos das gestantes infectadas durante a gestação.
Diariocampobelo.com: O que a senhora recomenda as mulheres que pensam em engravidar, diante dessa ameaça do Zika? Quais as formas de prevenção?
Dra. Carolina Starling: Um dos piores problemas do Zika é que, mais ou menos 70 % pode chegar até 80% das pessoas infectadas com o vírus são assintomáticas, não apresentarão sintomas. A melhor forma é a prevenção. Ela tem que ser feita combatendo os focos do mosquito, o que já é feito na prevenção da dengue.
Diariocampobelo.com: Medidas preventivas como repelente, camisas compridas funcionam nesses casos?
Dra. Carolina Staling: Além disso, tem a prevenção individual: uso de telas nas janelas; cortinado nas camas e durante o dia (o Aedes tem o hábito diurno) uso de repelentes. As gestantes estão autorizadas a usar. Repelentes duram 2 horas, 6 horas e 10 horas. Os mais fáceis de serem encontrados em Campo Belo são o OFF e Repelex. Duram seis horas no corpo.
As gestantes devem vestir a roupa e a parte que ficar exposta aplica-se o produto. A preocupação deve ser mais intensa durante o dia, pelo hábito do mosquito. À noite não há relatos de picadas, mas é bom se prevenir. Ventilador também é um aliado. A outra orientação do Ministério da Saúde, que eu considero um pouco complicado nesse calor, é para que as grávidas usem roupas de manga comprida. Em entrevista a médica paraibana (Adriana Melo), que fez a associação entre o Zika e a microcefalia, disse que é indicado o uso de roupas mais leves e pensar que é um sacrifício em prol do filho.
Diariocampobelo.com: Segundo o obstetra Thomas Gollop de São Paulo, a melhor prevenção à microcefalia é evitar gravidez. A senhora compartilha com este posicionamento?
Dra Carlonina Starling: É um ponto de vista individual. Não sabemos dos desdobramentos, se será uma epidemia tão séria quanto se imagina. Há muitas dúvidas e questionamentos. Em Pernambuco, onde tudo aconteceu, eles perceberam que existem mais casos de microcefalia se comparado á Bahia, por exemplo, onde também teve uma epidemia do Zika. Ainda há um outro questionamento sobre os casos encontrados, será que não tem outra associação ao vírus que provoque essa microcefalia, que seja mais comum em Pernambuco do que em outros estados? Não temos a dimensão do problema por enquanto.
Diariocampobelo.com: As gestantes que a senhora tem acompanhado, através do pré-natal, fazem questionamentos sobre esta associação (do Zika e a microcefalia)?
Dra. Carolina Starling: Os questionamentos ainda são poucos. Uma ou duas me perguntaram hoje. Eu optei por sempre avisa-las durante as consultas. Acredito que as pessoas ainda não se alertaram para essa preocupação em Minas Gerais. Não temos casos confirmados no Estado, apesar de já terem suspeitas. Teve um caso de microcefalia em Belo Horizonte, tudo em estudo. Acreditamos, baseando em declarações de epidemiologistas, que seja uma questão de tempo. O Rio de Janeiro deve ser a próxima região a ter uma epidemia do Zika e depois Minas.
Diariocampobelo.com: A microcefalia é uma doença grave. O que acontece com o bebê? E essa transmissão causada pelo picada do Zika pode ser prejudicial somente no inicio ou durante toda a gestação?
Dra Carolina Straling: Para acontecer a microcefalia tem que ter lesão nas células que formam o cérebro e isso acontece nos primeiros meses de gestação. Por aí conclui-se que a mulher fica mais vulnerável nos primeiros três, quatros meses de gravidez. Até o sexto mês já é possível descobrir a microcefalia. A paciente que fizer o ultrassom morfológico, com certeza, já perceberá uma diminuição do perímetro cefálico, uma diferença na cabecinha do feto. Não tem como ser descartada a possibilidade de outras alterações até mesmo neurológicas, numa criança que não tenha microcefalia, mas que a mãe seja infectada pelo Zika, por exemplo, no 7º ou 8º mês. Este vírus chega a destruir tecidos e estrutura do cérebro. Uma vez tendo diagnóstico de microcefalia é certo que a criança terá um desenvolvimento cerebral aquém do esperado. Problemas no aprendizado. A longo prazo espera-se também casos de surdez e cegueira. Estão pensando em casos de retardo mental grave.
Diariocampobelo.com: Quais são os sintomas da pessoa infectada com o Zika?
Dra. Carolina Starling: Os sintomas da pessoa com suspeita do Zika são: febre mais baixa do que a dengue, normalmente manchas no corpo associadas com coceira e diarreia.
Diariocampobelo.com: O que o governo tem feito após essa notícia do Zika e a que ele está relacionado?
Dra. Carolina Straling: Não temos visto na mídia como gostaríamos. Neste mês recebemos na maternidade em Campo Belo (MG) um protocolo para notificação de microcefalia. Eles têm medidas que são feitas, uma vez que a criança se encaixa nessas indicações é feito o diagnóstico da doença. Esta notificação é obrigatória e a maternidade tem que reportar ao Ministério da Saúde. Sinto necessidade de mais campanhas, de mais investimento do governo em ações de comunicação e prevenção. Depois que já aconteceu não tem como resolver mais.
Diariocampobelo.com: Há ainda uma outra associação, a Síndrome do Guillain-Barré. O que é esta síndrome e quais as consequências?
Dra. Carolina Straling: Está confirmado que existe uma associação entre o Zika e a Síndrome do Guilain Barré. Uma síndrome rara. A pessoa perde os movimentos do corpo. Uma doença grave, normalmente internação no CTI (Centro de Tratamento Intensivo) por dificuldades respiratórias. O tratamento é imunoglobina humana, que são caríssimas. Já tivemos um caso em Campo Belo no centro intensivo e gastou-se muitas ampolas. Se tivermos uma epidemia será desastroso. Esta síndrome acredito que tenha tido em torno de 60 casos no Brasil, mas não é muito divulgado.
Diariocampobelo.com: Sobre a chegada do Zika no Brasil, como aconteceu?
Dra Carolina Straling: Ele veio de uma floresta na África e acreditamos que ele tenha chegado ao Brasil pela Copa do Mundo de 2014. Teve uma movimentação grande de pessoas de fora. Todos os epidemiologistas são unanimes: não tem outra explicação que não esteja relacionada ao evento.
Fotos: Retiradas da internet.
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