
“A primeira hora de vida do bebê deve ser passada no colo da mãe, para que se conheçam, se olhem, se cheirem, para que o bebê seja amamentado”, revela Carol Carvalho.
O parto domiciliar, ou parto realizado em casa, frequentemente é tido como uma opção por mulheres que desejam vivenciar o nascimento do seu bebê de uma maneira mais natural, com maior autonomia e humanização.
O parto deve ser realizado em um local com infraestruturas adequadas e com boas condições de higiene. É necessária a presença de um médico, enfermeira ou parteira com experiência neste tipo de prática. Em geral a mulher é assistida por uma equipe composta por doulas e parteiras que levam para o local, onde vai ser o parto, os equipamentos necessários para a realização do mesmo.
É muito importante que se tenha um “plano de emergência”, para que mãe e filho possam ser encaminhados rapidamente e em segurança para o hospital mais próximo em caso de complicações.
Foi pensando em inúmeros benefícios que um parto desta natureza pode trazer, que a campobelense Ana Carolina Rodrigues Carvalho (Carol Carvalho) optou vivenciar a experiência em sua segunda gestação. A servidora pública já é mãe de Aurora com quatro anos. Aurora participou de todos os momentos, até o nascimento da irmã Nina. Em entrevista ao Diariocampobelo.com, Carol detalha os momentos mágicos que o método a proporcionou. A partir de agora, ela faz parte da equipe do site e trará sempre pautas interessantes aos leitores.
Diariocampobelo.com: Carol Carvalho, o que levou você (uma jovem mãe) a sair de Campo Belo (MG) para ter um parto domiciliar?
Foram várias minhas motivações para decidir ter um parto domiciliar em Belo Horizonte. Logo após o nascimento da minha primeira filha, em 2010, não me senti totalmente satisfeita com a experiência do parto, principalmente por causa do ambiente hospitalar desconhecido e por causa dos procedimentos rotineiros que incluíam deixá-la separada de mim logo após o parto, ficando 3 horas no berçário. A primeira hora de vida do bebê deve ser passada no colo da mãe, para que se conheçam, se olhem, se cheirem, para que o bebê seja amamentado.
Muitos hospitais agora já possuem o alojamento conjunto e o bebê não é separado da mãe, sendo que as avaliações pediátricas são feitas no próprio quarto da família. Mas até pouco tempo, os hospitais de Campo Belo não dispunham de alojamento conjunto.
Além desse motivo, desde a primeira gestação eu venho me informando sobre o nascimento respeitoso e natural, sem intervenções desnecessárias, e meu ideal era ter esse parto. Os estudos mostram que para uma gestação de baixo risco, partos hospitalares ou domiciliares são igualmente seguros, sendo que, em casa, o número de intervenções e a satisfação em relação ao parto são maiores, por se tratar de um local conhecido, acolhedor, onde a mulher não é mais uma paciente, mas a pessoa principal, a protagonista.
Somado a isso, eu tinha o desejo de que estivessem comigo não apenas um acompanhante, como é permitido nos hospitais, mas fazia questão que estivessem comigo meu companheiro, minha mãe e minha filha mais velha, com 4 anos. Assistimos juntas a vários vídeos de parto, alguns dos quais mostravam os filhos mais velhos participando. E ela dizia com muita naturalidade que queria ver a irmã nascer.
Para ter um parto em casa, eu tinha a opção de chamar uma enfermeira obstétrica para vir me atender em Campo Belo, ou eu poderia ir esperar entrar em trabalho de parto em BH. Acabei escolhendo a segunda opção por causa da possível necessidade de transferência para o hospital. Lá eu sabia que o atendimento continuaria sendo humanizado, enquanto aqui eu não tinha um obstetra alinhado com minhas escolhas e poderia sofrer algum tipo de violência obstétrica.
Diariocampobelo.com: Como descobriu este tipo de parto? 
O parto em casa sempre existiu e ainda existe em cidades distantes dos grandes centros urbanos com as parteiras tradicionais – mulheres sábias que aprenderam com outras a acompanhar as gestantes e a receber os bebês. Quando morei no Rio de Janeiro, na época em que estava grávida da minha primeira filha, participei de um grupo de gestantes e lá fiquei sabendo que em algumas cidades há enfermeiras obstétricas, obstetrizes e até médicos que atendem o parto em casa. Belo Horizonte é uma dessas cidades, com o diferencial de que o parto em casa pode ser totalmente gratuito, através do Hospital Sofia Feldman.
Diariocampobelo.com: Qual a avaliação você faz desta experiência?
Dá vontade de parir de novo! Foi uma experiência maravilhosa, eu me senti plena, forte, em contato com meu corpo e com meu bebê. Foi um momento de muita união entre toda a família. Tudo aconteceu exatamente como eu desejei. Tive meu corpo e meu tempo respeitados. Ver minha filha nascer com toda calma, quase sem chorar, confirmou que um nascimento respeitoso faz a diferença para todos, principalmente para o bebê.
Diariocampobelo.com: Sentiu medo?
Não diria que o que eu senti foi medo. Eu estava preparada para o parto. Não era um evento totalmente desconhecido, eu tinha informação e tinha também a experiência do parto anterior. Mas em alguns momentos eu perguntei para a equipe se estava tudo bem, achei que talvez estivesse demorando. Elas me asseguravam que estava tudo acontecendo normalmente, que os batimentos da Nina estavam ótimos e que logo ela estaria comigo. E, então, o receio passava.

Diariocampobelo.com: Sua primeira filha (Aurora) participou efetivamente desta experiência? Como você trabalha esta questão?
A Aurora participou de tudo, desde o início da gravidez. Ajudou a escolher o nome, conversava com a irmã na barriga e viu a Nina nascer. Tudo foi muito natural. Crianças não tem conceitos pré-estabelecidos sobre o nascimento, elas tem aquilo que nós as ensinamos. E eu ensinei que o parto seria um momento onde eu sentiria dor, mas que isso era normal, e que não iria doer o tempo todo, que a barriga ia apertar e depois parar, depois apertar e parar, até a Nina nascer. Expliquei que eu iria gritar, mas que não era a Nina me machucando, que era o corpo empurrando a irmãzinha dela aqui para fora. E que ela poderia assistir, se quisesse. Ela sempre disse que sim, que queria ver a irmã nascer. Só pediu que, se fosse à noite, não a acordassem! Mas o trabalho de parto aconteceu todo durante o dia, então ela ficou por ali, brincando, foi para o playground do prédio, voltou, lanchou e, no momento em que a irmã nasceu, ela estava ao meu lado, com uma expressão tranquila e curiosa.
Diariocampobelo.com: Quem mais esteve presente no parto?
Éramos 9 pessoas num apartamento pequeno: eu, marido, filha mais velha, mãe, tia (dona do apartamento, que nos recebeu por mais de 20 dias), doula, fotógrafa e duas enfermeiras. Pode parecer muita gente, mas eu precisava de que todas aquelas pessoas estivessem lá. Algumas mulheres preferem ter menos gente, mas eu queria muito dividir com a família, ter um registro fotográfico e também precisava da equipe.
Diariocampobelo.com: Quem é a doula?
Doula é uma mulher que presta apoio emocional e físico para a gestante. Através de métodos não farmacológicos, ela ajuda a aliviar a dor. A doula é mais que uma acompanhante, é uma pessoa que possui conhecimento para sugerir posições que favoreçam o trabalho de parto, faz massagens, diz palavras de incentivo e cuida para que nada atrapalhe o momento da parturiente. Nos partos hospitalares, a presença de uma doula pode ser responsável por reduzir intervenções como anestesia, episiotomia, uso de ocitocina sintética, entre outras. Curiosamente, minha doula, Júnia Maria, é de família daqui de Campo Belo, mas só fomos nos conhecer num curso de artesanato lá em Belo Horizonte, quando me encantei com sua doçura e lhe pedi que fosse minha doula.
Diariocampobelo.com: Campo Belo possui doulas?
Sim. Temos, por enquanto, duas mulheres com formação como doulas: eu e Marcela Nanetti.
Diariocampobelo.com: Como foi a sua recuperação depois do parto domiciliar? Ela foi mais rápida que a do parto convencional?
No parto normal hospitalar muito frequentemente acontece uma intervenção chamada episiotomia, ou pique, que é um corte no períneo (região entre a vulva e o ânus) feita sob o argumento de proteger essa região de um rasgamento com a saída do bebê. Acontece que num parto onde a mulher tem liberdade para ficar em posições mais verticalizadas, como de cócoras, sentada, em pé, e onde ela não fique empurrando antes de sentir vontade de fazer força, pode não haver qualquer corte ou apenas pequenas lacerações. A recuperação de uma episiotomia é a pior parte do parto normal. Como não tive esse procedimento e nem tive nenhuma laceração – apesar da Nina ser um bebê de 51cm e 3,530kg e eu uma mulher de 1,57 – a recuperação foi tranquila.
Foto: Pollyana Rocha
Diariocampobelo.com: Há riscos neste parto para a gestante e o bebê?
Os riscos do parto domiciliar são muito semelhantes aos do parto hospitalar em relação à mortalidade. São baixos, mas existem. Recomenda-se que apenas gestantes de baixo risco tenham partos domiciliares, porque nas gestações de alto risco é comum que seja preciso fazer intervenções com a mãe ou com o bebê. No parto domiciliar, algumas intervenções podem ser feitas na própria casa, pela enfermeira, porque ela leva material como oxigênio, fio para sutura, injeção para hemorragia pós-parto, entre outros, para realizar pequenas intervenções. Mas como a equipe é treinada, ao menor sinal de que algo vai mal, não hesitam em sugerir a transferência para algum hospital próximo, onde o parto possa continuar com segurança.
Diariocampobelo.com: Como trazer esta experiência para Campo Belo ou ao menos, conscientizar as mulheres sobre a importância de um parto domiciliar?
A opção para gestantes de Campo Belo que queiram parir em casa é contratar uma enfermeira obstétrica de alguma outra cidade, para que ela venha prestar atendimento assim que iniciar o trabalho de parto. Algumas parteiras de Belo Horizonte e São Paulo atendem em outras cidades. O parto domiciliar é um direito nosso, mas cada mulher deve poder escolher onde deseja parir. Algumas irão sentir-se mais seguras num hospital, outras numa casa de parto e, outras, em suas casas. O segredo para derrubar medos e mitos é se informar. Aqui em Campo Belo temos a Roda de Mães, um grupo que dá apoio e informação a gestantes em busca de um parto normal respeitoso. Os encontros são mensais e as datas são divulgadas pelo Facebook no endereço https://www.facebook.com/groups/rodademaes.

1 Comment
sem comentário. lembro ate hoje como era feito os partos em casa. ouvi meu irmão nascer só que que ñ foi de parteira foi feito por medico DR Wilson maçote. so que ele deixou meu irmão morrer enforcado com o cordão umbilical. eu e outro irmão nascemos em casa. sou triste ate hoje por ñ conhecer o outro meu irmão q o medico deixou morrer. ele nem ponto sabia dar.