“Ariana, fala grosso e meio teimosa”. É assim que Silvia Brandalise, fundadora do Centro Infantil Boldrini, em Campinas (SP), se descreve. Mas, acima de tudo, é uma mulher que em toda a vida teve um desejo que se sobrepôs a todos os outros: ser médica.
Foi guiada por esse desejo que Brandalise se tornou pioneira no tratamento de leucemia infantil no Brasil e instalou, no interior de São Paulo, uma unidade hospitalar dedicada ao tratamento do câncer em crianças referência na América Latina.
“Eu faço aquilo que me dá o maior prazer, e o maior prazer é levantar cedinho, tomar um café e vir para o lugar, para mim, mais prazeroso, que é ficar no hospital. […] Não [me considero pioneira]. Busco bons exemplos e, a hora que você me prova que é um bom exemplo, eu copio aquele bom exemplo”.
— Silvia Brandalise, fundadora do Centro Infantil Boldrini
📺 A história da médica é a primeira de uma série de reportagens da EPTV, afiliada à TV Globo, sobre personalidades pioneiras que ajudaram a transformar a região, em comemoração aos 45 anos da emissora, celebrados nesta terça-feira (1º).
Silvia Brandalise, fundadora do Centro Infantil Boldrini, em Campinas (SP) — Foto: Reprodução/EPTV
Apesar da vontade irremediável de cuidar do próximo, Brandalise conta que nunca teve o desejo de trabalhar com pacientes oncológicos infantis. Ainda assim, a vida deu um “jeitinho” de guiar a médica em direção ao que, futuramente, se tornaria o hospital.
“A mãe fala assim para mim: ‘Eu soube que meu filho não tem mais chance de cura. Eu podia te pedir um favor?’. O que você quer, Vera? ‘Cuida das crianças com leucemia’. Eu fiquei tão emocionada, as lágrimas começaram a sair do olho. […] Fui correndo para o banheiro e as lágrimas caíam. Eu não entendo até hoje por que me emocionou muito aquele chamado”, lembra.
Depois disso, outros pacientes surgiram, e uma criança mudou tudo. “Um menino de 8, 9 anos de idade, tenta o suicídio na Santa Casa. ‘Tia, eu não quero mais viver. Você viu o quarto onde eu estou internado? Você viu onde minha mãe dorme?’”, relata a médica.
“Sem saber o que eu estava dizendo, eu disse: ‘Eu te prometo que eu vou fazer um hospital só para doenças que você tem. Vou fazer um quarto bonito que vai ter uma janela em todo quarto, para a criança ver o céu, o sol, as plantas, as flores. Eu vou fazer um quarto e um banheiro para cada mãe, com uma cama. Nenhuma mãe vai dormir mais no chão. E eu quero que você me prometa que não vai repetir o que você fez. Então estamos quites’.”
— Silvia Brandalise, fundadora do Centro Infantil Boldrini
Hospital do Centro Infantil Boldrini, localizado em Campinas (SP) — Foto: Ely Venâncio/EPTV
Pioneirismo
Nasce, assim, o que seria o Centro Infantil Boldrini. Para que tudo pudesse se tornar realidade, das flores na janela às camas para as mães, contou com a doação de uma casa do Clube Lady de Campinas e a ajuda de um médico dos Estados Unidos. Na década de 1980, a médica lançou, ao nível nacional, com a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH), o primeiro protocolo de tratamento da Leucemia Linfoide Aguda (LLA) da criança.
Nós temos resultados quase iguais aos dos grandes centros americanos, então 84% de sobrevida, mas eu queria ir para 90%. […] Uma mãe ganhou, no enterro do filho dela, de um desconhecido que estava no cemitério, e me trouxe de presente esse papelzinho. A tristeza acabou sendo transformada através dessa poesia.
— Silvia Brandalise, fundadora do Centro Infantil Boldrini
E a poesia no papel, que hoje também ocupa as paredes do Boldrini, dizia:
“Se não houver frutos Valeu a beleza das flores Se não houver flores Valeu a sombra das folhas Se não houver folhas Valeu a intenção da semente”
Centro Infantil Boldrini, em Campinas (SP), recebe crianças diagnosticadas com câncer — Foto: Reprodução/EPTV
O primeiro paciente
André Macluf ainda se lembra do tratamento contra o câncer pelo qual precisou passar na infância. Foi ele quem, aos 5 anos, deu o “empurrãozinho” que Brandalise precisava para se dedicar integralmente à oncologia pediátrica.
“Tinha de 5 para 6 anos e, a princípio, a doutora Silvia não quis pegar meu caso. Ela falou que não era especialista, que não era oncologista nem hematologista, e iria me indicar para uma clínica em São Paulo. Numa dessas idas e vindas, eu pedi para a doutora Silvia me tratar”, recorda.
A médica, por sua vez, ainda guarda na memória a insistência. “André, não posso cuidar porque eu não sei tratar dessa doença. ‘Não importa, tia, cuida de mim’. Começou a me puxar e berrar e eu falei: ‘Para de berrar! Para de chorar que eu vou cuidar de você, vai’. Fui nocauteada por ele”, diz Brandalise.
Esse nocaute foi o que fez Silvia deixar o cargo de chefe da enfermaria pediátrica do Hospital de Clínicas da Unicamp. A recompensa é ver que, assim como muitos outros pacientes que passaram pelo Boldrini, André hoje aproveita a vida ao lado da filha – que, assim como Silvia, carrega o sonho de ser médica.
André Macluf, dentista e primeiro paciente do Centro Infantil Boldrini — Foto: Reprodução/EPTV
Publicado por Diário Campo Belo
02/10/2024 – às 11h44
Fonte: Por Rafael Castro, Fernanda Zanetti/ EPTV 1 – Reprodução EPTV