

Julia consola Bruno Bolt após derrota no Federação Fight — Foto: Raphael Marinho
A rotina atual de Bruno Bolt, que concilia os treinos de MMA com emprego de bartender em um restaurante, faz sua história ser parecida com a de diversos atletas espalhados por todos os cantos do Brasil em um primeiro momento. Mas basta conversar com ele para conhecer sua trajetória e entender a fortaleza que ele precisou ser para superar as adversidades que a vida colocou no seu caminho. O jeito sorridente ajuda a esconder os demônios que o mineiro de Campo Belo precisou (e ainda precisa) vencer em sua vida. Aos 26 anos, no início de sua carreira nas artes marciais, ele já viveu um roteiro digno de filme e sonha com um final feliz para seu filho Miguel, de dois anos, e sua esposa Julia Rodrigues.
Começar a contar a história do que passou não é fácil para Bruno. O semblante muda, as lembranças surgem – algumas que ele prefere não comentar (“São feridas que ainda estão abertas”) -, e ele volta no tempo para quando tinha apenas nove anos. Na época, morava em Ribeirão Preto (SP) com o pai e a madrasta. Foram sete anos de sofrimento e sobrevivência, e estar vivo hoje parece uma dádiva para o atleta.
Bruno diz que até então era uma criança quieta, mas que sofria na relação com o pai. Apanhava quando ele chegava do trabalho, apanhava se as irmãs chorassem, ficava de castigo por razões que nunca foram explicadas. Sem ter com quem contar dentro de casa, passou a frequentar mais a dos amigos “para poder comer ou brincar”. Entretanto, a volta para a realidade costumava ser cruel, chegando ao ponto de encontrar a porta trancada algumas vezes e ter que procurar onde dormir.
A situação chamou a atenção dos vizinhos, que denunciaram ao Conselho Tutelar. Bruno foi levado para o Centro de Atendimento a Crianças e Adolescentes Vitimados (CACAV) e não sabe dizer com exatidão quanto tempo ficou na instituição. Mas foi lá que despertou seu interesse por luta, mais especificamente pelo boxe.
O pai, contudo, recuperou a guarda de Bruno, mas o destino o fez pular de lar em lar. Até que, aos 16 anos, parou em sua cidade natal, Campo Belo (MG), para morar com sua avó. Àquela altura, revoltado com a vida, já não era mais tão quieto. O que não mudava era a falta de compreensão sobre ninguém querer ficar com ele.

Bruno Bolt reencontrou a cachorra Chiquinha — Foto: Raphael Marinho
Em suas andanças por Campo Belo, encontrou uma cachorra e resolveu cuidar, batizando-a de Chiquinha. O que ele não sabia é que ela estava grávida… de oito! Bruno tinha conseguido um emprego de ajudante de servente e voltara a ter um teto. Assim, não se desfez dos filhotes quando eles nasceram. Mas o desemprego novamente bateu em sua porta.
Sem pagar as contas, convivia com cobranças da proprietária. Pouco depois, teve a luz cortada. Adiante, foi a vez de ficar sem água. Um bico aqui, outro ali, mas o desespero batia em Bruno. Ter que recorrer aos familiares e escutar outra vez tudo que já não precisava mais ouvir era demais para ele. Cogitou suicídio, mas desistiu. E com nove cachorros para cuidar, priorizou a alimentação de seus companheiros de cada dia. Ração passou a ser presença no seu cardápio.
– Ração incha. Você come, toma água e incha. Aí sacia sua fome. Comecei a fazer isso. Quando conseguia dinheiro, ia no negócio de ração e perguntava o valor de algum saco de ração mais barato. Comprava e ficava comendo com eles, que era o que matava a fome. Quando conseguia uma coisa a mais de bico, aí comprava alguma coisa normal, de ser humano mesmo. Uma comida normal. Mas teve época que eu e os cachorros não tínhamos nada – disse, lembrando que chegou a ter que comprar ração de porco certa vez.
– Foi uma vez só. Não gostei muito não. Ração de porco é mais barato. Faz o mesmo efeito, mas o sabor não é muito legal. Não tinha aquele paladar (risos).
Surpresas para Bruno
Visitar Julia e Miguel é difícil com a rotina de Bruno. Durante a semana ele treina, no fim de semana, trabalha no restaurante. Quando a reportagem foi até Varginha encontrá-lo, ele não via esposa e filho há três meses, e o “Esporte Espetacular” levou o lutador até Campo Belo para que ele pudesse revê-los. Lá, Julia contou que um dos sonhos dela era assistir uma luta dele de perto.
Pouco tempo depois da gravação da entrevista, Bolt teve luta marcada pelo evento Federação Fight, em Belo Horizonte. Sem que ele soubesse, foi à vez de fazer Julia e Miguel irem até ele. Na véspera do confronto, após passar pela pesagem, os dois foram até o quarto de Bruno, que ganhou motivação extra para o confronto contra Zequinha no dia seguinte.
No dia da luta, Miguel foi para o ginásio com uma camisa personalizada de seu pai. Julia não escondia a ansiedade. Mas Bruno acabou finalizado no primeiro assalto. Ter que lidar com a derrota na frente de sua família não foi fácil. O lutador chorou e precisou ser consolado pelos companheiros de equipe antes de ir ao encontro dos dois.
– Desculpa, viu? Papai não ganhou desta vez – disse, ao abraçar Miguel.
Com três derrotas seguidas na carreira, Bolt tenta agora dar nova volta por cima. Mas como duvidar de nova virada após Bruno superar reveses muito mais difíceis?
– O talento dele é talento UFC. Ele é talentosíssimo. Só não podemos esquecer que ele está começando. Às vezes, a gente que é do interior tem que pular algumas etapas. Tem que pegar um menino que poderia ser um pouco mais trabalhado se tivesse patrocínio e lançar no profissional, (sem) colocar no amador primeiro.
Com o Bolt, foi muito rápido. É precoce. Mas entendam que, se a gente não fizer isso, por ser do interior, não consegue chegar. Então tenho que ter esse risco de lançar. Mas tenho certeza de que vai chegar no UFC.
Ele é tudo que o UFC quer. Talentoso, bonito, sabe se vender e tem uma história de vida que é muito importante. Sem apelação, mas a criança pobre, de rua, tem que saber que ela pode chegar. Não precisa se espelhar no bandido, que ganha dinheiro rápido. Pode se espelhar na Amanda, no Bolt. Batalhando, às vezes pulando etapas, mas ela vai chegar – concluiu Marcelo.
Fonte: Reprodução Esporte Espetacular
Fotos: Raphael Marinho




