

O Conselho de Sentença do Tribunal do Júri condenou nesta sexta-feira (15/03) os quatro acusados pela morte do menino Bernardo Uglione Boldrini, em 19 de abril de 2014. Após cerca de 50 horas de julgamento popular, em cinco dias, a sentença foi proferida pela juíza Sucilene Engler Werle por volta das 19h00 no Foro de Três Passos, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Bernardo morreu aos poucos, antes pediu ajuda e foi ignorado pelas autoridades competentes. Por ser de família influente, moradores da pequena Três Passos, apesar de verem o sofrimento do “pobre menino rico”, não tiveram coragem de interferir e ajudar o menino a provar as agressões que sofria. Bernardo só queria uma família.
Veja as penas
►Graciele Ugulini, madrasta de Bernardo, teve a pena mais alta: 34anos e sete meses de reclusão em regime inicialmente fechado, por homicídio quadruplamente qualificado e ocultação de cadáver. Ela não poderá recorrer em liberdade.
►Leandro Boldrini, pai da criança, recebeu 33 anos e oito meses de prisão por homicídio doloso quadruplamente qualificado, ocultação de cadáver e falsidade ideológica. ►Edelvânia Wirganovicz, amiga de Graciele, foi condenada a 22 anos e 10 meses por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver.
►Evandro Wirganovicz, irmão de Edelvânia, pegou nove anos e seis meses em regime semiaberto por homicídio simples e ocultação de cadáver.
Ao ouvirem o veredito, seguido das penas, os réus não esboçaram reação. O médico Leandro vestia uma camiseta assinada pela filha de seis anos com os dizeres: “Pai, eu sigo seus passos”.
Os irmãos dele estavam presentes. Sentado em uma das cadeiras reservadas aos familiares, o mais velho balançava a cabeça em sinal de negação após ouvir o resultado. “Achei exagero. Me decepcionei com a decisão”, confessou Paulo Boldrini ao G1. Ele disse que ainda acredita na inocência de Leandro. Minutos depois, Edelvânia propôs um abraço entre irmãos. Separados por uma mesa, ela estendeu os braços em direção a Evandro, que retribuiu o gesto.
Do lado de fora do prédio, a comunidade esperava, ansiosa, pelo resultado, que foi comemorado pela maioria. A medida que o término do julgamento se aproximava, o movimento na avenida Júlio de Castilhos crescia. Dezenas de pessoas vestiam camisetas com a foto de Bernado e seguravam cartazes em homenagem ao menino.
Lida a sentença, parte da população saiu em caminhada até a casa onde Bernardo vivia, a algumas quadras dali. O objetivo era retirar os cartazes com pedidos por justiça que, há quase cinco anos, se acumulavam no local. “A gente sempre comentou que quando a justiça fosse feita e tudo acabasse a gente ia tirar. Até para trazer paz para ele e para todos”, justificou a ex-professora de Bernardo, Susana Ottonelli.

Moradores de Três Passos vestiram camisetas com a foto de Bernardo no último dia do julgamento — Foto: Joyce Heurich/G1
Enquanto isso, a outra parte preferiu aguardar a saída dos condenados em frente ao Fórum. Aos gritos de “assassinos, assassinos”, a população assistiu de perto aos carros da Superintendência de Serviços Penitenciários (Susepe) deixando o local.
Os quatro já estavam presos e retornaram às penitenciárias após o julgamento. Cabe recurso (entenda abaixo). Muitas pessoas, inclusive, pediram para tirar fotos ao lado dos promotores do Ministério Público quando o julgamento acabou e parabenizaram o trabalho da acusação.
Em entrevista coletiva após a o julgamento, a juíza Sucilene Engler comentou os cinco dias de júri. “Eu e minha equipe vínhamos nos preparando há tempos. Tínhamos 28 testemunhas arroladas, estávamos preparados para um julgamento longo”, ressaltou ela. Houve desistências, sobrando 14 testemunhas, o que possibilitou o julgamento mais breve.
Conforme a juíza, Graciele recebeu uma pena maior do que a de Leandro, apesar de responder por menos crimes, em função do juízo de valor do que está previso em lei e o que consta nos autos. “São as circunstâncias dos autos que devem ser avaliadas. Quando fazemos a dosimetria, avaliamos a personalidade, a conduta”, detalha.
“A conduta valorada a ela foi um pouco mais grave”, explicou. “Desde o início, eu senti um certo tratamento diferente talvez, todo mundo preocupado com o caso. Entendo que teve repercussão desde o início. Mas a forma como eu saio daqui hoje é a mesma forma como saio de qualquer outro júri”, concluiu a juíza.

Sentença foi proferida pela juíza Sucilene Engler por volta das 19h em Três Passos — Foto: Joyce Heurich/G1
Acusação
Um dos promotores do caso, Bruno Bonamente, disse que o Tribunal do Júri fez justiça com a condenação dos quatro réus. “O MP avalia o resultado como excelente”, pontuou ele, em entrevista coletiva com os colegas Silvia Jappe e Ederson Vieira. Conforme Bonamente, o cálculo das penas e a possibilidade de recurso serão avaliados pelo MP.
O promotor comentou, por exemplo, que Evandro foi condenado por homicídio simples, e não qualificado, conforme a denúncia. “O MP entende que esse afastamento das qualificadoras representam a vontade do júri”, afirmou.
Em um julgamento longo, marcado por intensos debates, a promotoria avalia que os resultados foram positivos, mas questionou algumas atitudes das defesas, como o fato de alguns réus se negarem a responder perguntas do MP. “O silêncio é um direito constitucional, mas nos sentimos cerceados”, afirmou Ederson. Ele acrescentou que não vê chance para pedido de nulidade do julgamento.
O que dizem as defesas
O advogado de Leandro Boldrini, Ezequiel Vetoretti, não quis se manifestar sobre o resultado. Ele disse que a defesa ainda irá analisar se vai recorrer da decisão. A defesa de Graciele Ugulini já adiantou que vai recorrer. “Vou recorrer por uma questão de ordem técnica, nós entendemos que tem uma problemática na montagem do Conselho de Sentença”, afirmou ao G1 o advogado Vanderlei Pompeu de Mattos.
O advogado de Edelvânia Wirganovicz também irá recorrer. “Para tentar reduzir um pouco essa pena, analisar se tem alguma hipótese para anulação do júri”, explicou o advogado Jean Severo, complementando que também tentará a absolvição de sua cliente no homicídio (em caso de anulação do júri).
O representante de Evandro Wirganovicz disse que a condenação foi injusta e que vai entrar com recurso. “Há uma condenação sem provas no caso do Evandro. Não há qualquer elemento que justifique a condenação”, disse o advogado Luiz Geraldo Gomes dos Santos. Resumo Bernardo foi morto no dia 4 de abril de 2014, e enterrado em uma cova cavada à mão.

Mãe e filha colam adesivo com foto de Bernardo em suas roupas pouco antes do término do julgamento — Foto: Joyce Heurich/G1
Resumo
►Bernardo foi morto no dia 4 de abril de 2014, e enterrado em uma cova cavada à mão.
►O menino morava com o pai, Leandro Boldrini, e a madrasta, Graciele Ugulini.
►O corpo foi encontrado na noite de 14 de abril de 2014.
►Leandro, Graciele e Edelvânia Wirganovicz, amiga de Graciele, foram presos no dia.
►A investigação apontou superdosagem do medicamento Midazolam como a causa. Os três foram indiciados.
►No dia 10 de maio de 2014, o irmão de Edelvânia, Evandro Wirganovicz, também foi preso.
►A polícia divulgou vídeos de brigas entre Bernardo, Leandro e Graciele, e também conversas de familiares sobre o crime.
►A denúncia do Ministério Público apontou que Graciele ministrou o remédio, com ajuda de Edelvânia. Leandro foi apontado como mentor e Evandro, como cúmplice.
►Já na condição de réus, Leandro, Graciele e Edelvânia e Evandro foram pronunciados ao Tribunal do Júri.
Recurso
As partes podem recorrer da decisão, porém, o recurso não poderá passar uma condenação para absolvição e vice-versa. Para isso, seria necessário um novo julgamento popular. Os desembargadores, que julgam os recursos, não podem reformar o entendimento do Tribunal do Júri, que é soberano, mas podem modificar a pena aplicada pela juíza.
Também pode haver pedido de anulação do Júri. Se ninguém recorrer, em cinco dias a decisão será definitiva. O Conselho de Sentença do Tribunal do Júri, que define se os réus são culpados ou inocentes, é formado por sete jurados, escolhidos dentre um grupo de 25 pessoas da comunidade já convocadas pela Justiça.
No caso Bernardo, a avaliação coube a cinco homens e duas mulheres. A partir da decisão dos jurados, a juíza que preside o Júri é quem aplica a pena e faz a leitura da sentença.
Fontes: G1 e Record
Pedido de Socorro!

Bernardo era ameaçado constantemente. Essas sessões de violência foram mostradas no Tribunal do Júri. (Reprodução TV Record)
Bernardo Boldrini Ugulinim, em dezembro de 2013, então com 9 anos, sozinho, molhado, sujo, faminto, e exausto entrou pela porta do Centro de Defesa e Direito da Criança na cidade de Três Passos (RS), reclamando de fome, falta de atenção e maus tratos. Suas palavras segundo o conselheiro foram exatamente essas; “lá, naquela casa ninguém me dá bola, estou sempre com fome, todo mundo come na rua, meu uniforme da escola está sempre sujo. Eu preciso de uma família que cuide de mim”. E sob olhar permissivo dos inoperantes responsáveis pelo atendimento da casa, o pequeno saiu pela mesma porta, sozinho, sujo, mais faminto, mais exausto e mais desesperançoso.
Haviam lhe dito: “Nada podemos fazer, você foi examinado, não tem marcas, hematomas nem cicatrizes, não temos provas, não podemos te recolher.” Por pura falta de interesse faltou exame para cicatrizes interiores e por pura conveniência foi lhe negado credibilidade. Não acreditavam que a empregada era proibida de cozinhar para Bernardo, que estrategicamente cumpria o horário na ausência do pequeno, como não acreditaram que Bernardo não fez a comunhão no Domingo anterior, porque a madrasta negou-se a comprar a roupinha branca que a igreja oferecia, assim como não acreditaram que seu quarto ficava nos fundos da bela e espaçosa casa, ornado com móveis surrados, brinquedos quebrados, sem tv nem computador, uma pequena janela e uma lâmpada fraca incandescente.
Bernardo há 5 anos vinha morrendo em vida, desde o suposto suicídio misterioso de sua mãe, pedia ajuda a todo mundo, professores, vizinhos, tios, primos, comerciantes, colegas e até aos garis que viam todos os dias Bernardo vagando pelas ruas da pequena Três Passos. Todos eram solidários situacionistas do sofrimento de Bernardo, e todos deveriam hoje tb ter uma cadeira de réu cúmplice no fórum de Três Passos.
Todos passavam a mão em sua cabeça, lhe alcançavam um sanduíche, um brinquedo velho, uma bolacha, um moletom, uma laranja, um guarda chuva, um iogurte, uma toalha, um boné, um par de meias secas, um picolé. Ações sempre seguidas de abraços. Todos sabiam de seu desespero e a paixão que tinha por chamegos. Mas nenhum foi capaz de acompanha-lo e testemunhar os maus tratos escancarados. Bastaria um único adulto no circuíto, para Bernardo estar hoje perto de comemorar os 15 anos, ainda que fosse, no tão sonhado paraíso, abrigo de menores abandonados.
Cinco anos de espera
Em fevereiro de 2014, então com 10 anos, Bernardo Ugulini, filho de pai algoz, milionário e influente, passou pela segunda vez pelas portas do conselho tutelar da cidade, Nessa ocasião porém, munido de um celular, que até hoje ninguém sabe de onde surgiu, com imagens gravadas de maus tratos, escárnio e deboche. O pequeno então apresentou em vídeo o sofrimento infernal que era submetido diariamente por um pai verdugo e uma madrasta tirana. Ainda assim , por pura conveniência foi lhe negado respeito. Bernardo nesse dia, pela mesma porta que entrou, saiu acompanhado pelo pai que foi chamado.
Uma semana depois, Bernardo, o pobre menino rico, sentou-se frente a frente com o pai, na presença de um juiz. E como um pequeno adulto, completamente tolido das das despreocupações da infância, revindicou humildemente uma chave de casa, ou pelo menos um toldo, para que não mais ficasse no sol e na chuva depois que chegasse da escola, até que os malditos adultos daquela casa chegassem dos seus compromissos de trabalho, jantares chiques e baladas da moda.. Assim com a chave, poderia entrar e se alimentar, com a mesma refeição de sempre, que ele mesmo fazia, miojo, pão tostado, alguma sobra e pipoca, ao invés de ficar perambulando pela cidade. O pai monstro disse sim, e o levou para casa, Bernardo nunca ganhou aquela chave.
Ao invés disso um mês depois, Bernardo ganhou um buraco num barranco sujo. Foi ali que o menino rico, que brincava com papelão, latas e brinquedos doados, foi enterrado ainda vivo.
Foi ali que o menino rico, que não tomava banho ia sujo para escola e ficava até a noite só com a merenda, teve seu corpo ainda pulsante comido por 7 kg de soda cáustica. Foi ali que o menino rico que há 5 anos não comemorava aniversários, nunca havia ido no Mc Donalds, nunca havia visto o mar e nem ganhado uma bola, e apesar de morar em uma casa com piscina era proibido de entrar, foi jogado com doses cavalares de anestésicos injetados pela madrasta enfermeira do pai, cirurgião plástico renomado no estado do Rio grande do Sul.
Hoje começou em Três Passos o julgamento do pai cirurgião Leandro Ugulini, que administrou as doses cavalares de anestésicos, premeditada, fria e matematicamente, divididas em três seringas. Da madrasta baladeira socialite Graciele Uguline que injetou os anestésicos. Dos irmão interesseiros comercializados ao demônio por seis mil dinheiros, Edelvânea Wirganovicz que enterrou o menino e Evandro Wirganovicz que cavou o buraco.
Bernardo naquela tarde, foi atraído pela madrasta para o passeio final, achando que ganharia uma tv para no futuro instalar um vídeo game, o sonho que nunca realizou.
A noite daquele mesmo dia, Leandro e Graciele foram para uma balada a fantasia com o tema dos anos 80, Edelvânea foi visitar parentes na cidade vizinha e fazer compras, e Evandro subiu a serra gaucha para uma noite romântica com a namorada.
Poderíamos estar escrevendo aqui, mais no minimo 100 nomes. Os cúmplices que se omitiram. Os cúmplices que hoje aliviam seus remorsos, nomeando praças e ruas com o nome de um anjo, com bichinhos de pelúcia no buraco, com camisetas brancas nas datas e com a mórbida manifestação nos aniversários que esse anjo nunca teve, com bolo velas e balões em frente da casa com piscina, a qual Bernardo não era digno.
A morada mais bela do bairro, de gramado impecável onde Bernardo nunca rolou uma bola.
Nunca teve uma festa.
Onde Bernardo foi tão infeliz.
Texto: Crônica de Naira LütckMeyer Müller
Antes do crime
Condenados
