
Uma exposição no MASP revaloriza a obra da neta de escrava, uma das grandes artistas do século XX. Maria Auxiliadora: vida cotidiana, pintura e resistência

Maria Auxiliadora, campobelense, que faleceu aos 39 anos. Ela cresceu numa família de militantes negros (Foto: Divulgação Masp)
“Empregada doméstica trocou o aspirador pelos pincéis”. A “empregada doméstica” era Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974), que nasceu em Campo Belo (MG), onde viveu até os três anos de idade, depois se mudou para São Paulo e morou no bairro da Casa Verde, na Zona Norte da capital. A artista vendia seus quadros na Praça da República, no centro paulista. Assim foi a vida da pintora brasileira reconhecida em outros países, principalmente Alemanha. Ela faleceu aos 39 anos, vítima de câncer, mas deixou inúmeras obras, que estão expostas na Fundação Casa da Cultura em Campo Belo até o dia 27 de abril; A exposição também acontece no Museu de Artes de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). A direção da FCC campobelense convidou autoridades para participarem do primeiro dia de exposição da artista na terça-feira (18/04), mas a Secretária de Educação, Rosana Junqueira e o Chefe da Divisão de Cultura, Jota Martins não compareceram. A assessoria de comunicação não deu coberta à exposição da Casa da Cultura até o momento.

Equipe da Casa da Cultura, que organizou a exposição em Campo Belo. Thalles Rezende (Presidente – à esquerda) e sua equipe. (Foto: diariocampobelo.com)
A pintura delicada, precisa e pungente da artista retrata seu cotidiano e sua cultura, atravessando muitos temas afro brasileiros: a capoeira, o samba, a umbanda, o candomblé, os orixás são vistos na obra da artista. Filha de ferroviário, de uma família de 18 irmãos (também artistas), Maria Auxiliadora era auto ditada. Ela conquistou reconhecimento com suas obras que retratavam também a vida doméstica e rural. Produziu auto-retratos, principalmente no período em que descobriu um câncer. A pintora registrou em tela a batalha com a doença e em uma de suas obras retratou o próprio funeral.
Aos três anos de idade se mudou para São Paulo com os pais e os irmãos. Aos 12 abandonou os estudos para ajudar a família e trabalhou como empregada doméstica e passadeira.
De origem humilde (na Casa da Cultura têm fotos de sua antiga residência), descendente de escravizados, Maria Auxiliadora inventa um outro modo de pintura, longe dos preceitos acadêmicos e modernistas. Uma técnica singular se tornou sua assinatura: mediante uma mistura de tinta a óleo, massa plástica e mechas do seu cabelo, a artista construía relevos na tela. Seu percurso está longe dos artistas canonizados pela história da arte: passou pelas feiras de artes da praça da República, no centro de São Paulo, e da cidade de Embu das Artes, próxima da capital — lugares de confluência e intercâmbio entre aqueles que não encontravam espaços e oportunidades em museus e em galerias do circuito oficial.
Em 1972, retornou os estudos, se inscrevendo no Centro de Alfabetização de Adultos Beato Marcelino Champagnat. No mesmo período descobriu a doença, e passou por seis operações. Sem conhecimento formal em artes aprendeu bordado com a mãe aos 9 anos, desenhando com carvão aos 14, passando para o lápis de cor aos 16/17. Passou logo para o guache e só aos 26 experimentou a tinta óleo. Mesmo conhecendo outras técnicas, preferiu o carvão.
Em 1970, poucos anos antes de falecer, Maria Auxiliadora teve uma surpresa que mudou a sua trajetória artística. Retornou a capital paulista e ao expor suas obras na Praça da República conheceu o marchand alemão Wener Arnhold e crítico de arte Mário Achemberg, que a apresentou ao cônsul dos Estados Unidos, Alan Fischer.Ele contribuiu para a ascensão do trabalho da artista campobelense, levando suas obras para exposição na Alemanha, Suíça e Paris. O reconhecimento de Maria Auxiliadora veio postumamente. Ela faleceu em 20 de agosto de 1974. Três anos depois de sua morte uma editora italiana publicou o livro Maria Auxiliadora da Silva.
Origem

Casa onde a família Silva morou em Campo Belo, próximo a linha do trem. Ela viveu com os 18 irmãos. Todos eram artistas. (Foto: Divulgação Casa da Cultura)
A família Silva morou nas proximidades da antiga linha do trem da Rede Ferroviária Federal (RFF). De acordo com relatos constados na FCC, à época na cidade havia 16 mil habitantes. A casa da família da pintora era bastante simples, de tijolos e madeira (registros na Casa da Cultura). A roupa era lavada no ribeirão.
Ainda de acordo com Thalles Rezende (presidente da Casa da Cultura), na história de Campo Belo é possível encontrar registros das atividades folclórica tradicionais, retratadas nas obras de Maria Auxiliadora. Ela morou e cresceu em outro centro, mas a cultura da cidade natal foi marcada em suas obras. “Em todos os relatos da família Silva, há referências à festas. Mesmo que não houvesse uma comemoração específica, os Silva faziam da própria reunião familiar uma festa, em torno do fogão. Cantavam, recitavam, dançavam”, lembrou o presidente da Casa da Cultura de Campo Belo.
Mudança
O pai, José Cândido, ganhava pouco como funcionário da Rede Mineira de Viação e tal rendimento não era suficiente para sustentar a numerosa família. Juntos decidiram que a matriarca Maria de Almeida iria para São Paulo com os filhos, e ele (pai) permaneceria para acertar as contas e outras pendências e posteriormente iriam encontrá-los.
A história comovente de Maria Auxiliadora Silva, pintora campobelense que se consagrou pouco antes de sua morte, pode ser apreciada na Fundação Casa da Cultura em Campo Belo. Os conterrâneos que moram em São Paulo podem apreciar as obras da pintora no MASP.
Fonte: MASP e Casa da Cultura de Campo Belo
