
▶️ Julgamento em Campo Belo terminou com alvará de soltura; Ministério Público vai recorrer da decisão
A maioria do júri, formado por quatro mulheres e três homens, absolveu nesta terça-feira (5/12/2017) a família acusada de matar um casal na Comunidade do Óleo, zona rural de Cristais (MG), em setembro de 2015. O julgamento ocorreu no salão do júri Tabelião Américo Massote, em Campo Belo, e terminou às 20h45, quando o juiz criminal proferiu a sentença determinando a expedição de alvará de soltura dos acusados no dia seguinte.
Em janeiro de 2017, a Polícia Civil havia apresentado uma mulher, o marido dela e dois irmãos como supostos mentores do crime. Eles, no entanto, foram inocentados pela decisão do júri popular.
A Promotoria e o advogado assistente de acusação anunciaram que irão recorrer da sentença, pedindo a nulidade do julgamento junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Os réus respondiam pela morte de Adilson Moreira Neves, operador de máquinas de 37 anos, e Priscilla Alves Girardelli, funcionária de confecção de 24 anos. O casal foi encontrado morto no sítio onde morava. A jovem estava com o corpo parcialmente carbonizado, enquanto o homem apresentava marcas de tiros.
Familiares das vítimas e dos acusados acompanharam o julgamento, que durou todo o dia.
bonizado e o rapaz com marcas de tiros pelo corpo. Familiares das vítimas e dos acusados assistiam o julgamento.
Os quatro acusados respondiam pelos crimes de homicídio por motivo fútil e destruição de cadáver. Se tivessem sido condenados, a pena poderia chegar a 30 anos de prisão. No momento em que o promotor Wagner Carvalho apresentava os elementos levantados pela polícia durante a investigação (entre eles, fotos da cena do crime) a filha de Priscila ficou muito abalada e deixou o salão do júri durante a apresentação.
O julgamento foi marcado por muitas contradições nos depoimentos e todos os depoentes confirmaram a relação extraconjugal de Wanderleia Ricarte (acusada) e Adilson (a vítima). Três advogados defendiam os acusados. Dr. Luiz Gustavo (defensor público), Dr. Geraldo (delegado aposentado) e Dr. Ronaldo Oliveira (Ronaldinho).
Uma das testemunhas de acusação disse em plenário que Tiago teria confessado à ele sua participação no crime. Segundo Osvaldo (depoente), Ricardo teria dado detalhes do crime e dito que jogaram a moto (levada do sítio no dia do homicídio) na ponte em Boa esperança. Versão contestada pela defesa.
Uma das testemunhas arroladas pela defesa foi Patrícia (irmã dos acusados). Ela confirmou o relacionamento extraconjugal de Wanderleia e Adilson.
Daniela Pinheiro, esposa do Tiago Ricarte, também depôs. Ela garantiu estar com o marido e os filhos em casa no dia do crime. Ela também disse que não tinha intimidade com os irmãos do marido.
Sentença
Após depoimentos de testemunhas, réus, além da argumentação da promotoria e advogados de defesa, os jurados votaram os quesitos e o juiz anunciou a sentença, que provocou indignação nas famílias das vítimas.
Dr Jorge do Carmo (assistente de acusação) que foi impedido de atuar no dia do julgamento tentará no Tribunal de Justiça a nulidade da sentença. Ele criticou a decisão. “Bastante inesperada. Esperávamos um trabalho mais acirrado. Esperávamos que o júri perdurasse por mais dias. Foi relativamente muito rápido, por serem duas vítimas, pela complexidade e por serem quatro réus. Foi um dos juris mais rápidos que já presenciei. Haviam algumas nulidades, e entendemos que cabe recurso e fatalmente junto ao TJMG para obtermos a condenação dessas pessoas que acreditamos, com base nas provas que constam nos autos, que são de fato as pessoas que cometeram essas atrocidades contra a Priscila e o Adilson.
Dr. Jorge pretende impetrar mando de segurança no Tribunal de Justiça. “O primeiro recurso será em relação a minha inabilitação para atuar ao lado do Promotor. Em seguida, tentar a nulidade do júri”, explicou o defensor da família da Priscila Giradelli.
Julgamento
O juiz relatou o teor da denúncia antes de ouvir Luciano Francisco Rodrigues de 39 anos (marido da acusada). Segundo a denúncia, na noite de 25 e madrugada de 26 de setembro os quatro acusados por motivo torpe e sem direito a defesa mataram Adilson e Priscila. Consta no inquérito que os quatro destruíram o corpo de Priscila.
O juiz continou lendo a denúncia que aponta que dias antes do homicídio, Priscila bateu no rosto de Wanderleia. Depois disso, (eles acusados) foram à propriedade rural e mataram as vítimas. Adilson foi assassinado com três tiros e Priscila teve o corpo carbonizado. Ainda, segundo a denúncia, os supostos autores induziram as autoridades a acreditarem em latrocínio (roubo seguido de morte), pois objetos das vítimas foram levados do sítios. Após informar ao então réu as informações constantes nos autos, o magistrado ouviu Luciano, que negou ser o autor da barbárie. Mas confirmou ter conhecimento da traição da esposa. O mesmo procedimento ocorreu com os outros três acusados. Porém, assim como Luciano, negaram a autoria do crime.
“Estou envolvido nesta acusação por causa do relacionamento extraconjugal da minha esposa com Adilson. Priscila também flagrou os dois juntos. Tomei conhecimento da briga de ambas por especulações. No dia em que descobri foi atrás do Adilson e da Wanderleia para traze-la pra casa. Eu não tinha nada contra Adilson”, disse Luciano.
A mesma conduta o juiz teve com Wanderleia. Ele relembrou, de acordo com os autos, que a acusada perturbava Priscila com ligações. A mesma negou participação no duplo homicídio, mas confessou o envolvimento com Adilson. Assumiu ainda que ligou para Priscila.
“Ela às vezes me ligava para saber se eu havia ligado pra ela. Falou em rastreamento de ligações. Chegou a ir em minha residência e naquele dia, na minha sala o telefone dela tocou no modo confidencial. Não sei quem ligava. Certo dia, ela (Priscila) me deu um tapa”, declarou Wanderleia.
De acordo com o promotor que atuou no caso, Dr. Wagner Carvalho trata-se de um caso complexo e que demandou várias linhas de investigação. “Diante de todos elementos trazidos nesta investigação temos condições de imputar aos réus a culpa. Na linha de investigação têm elementos suficientes para a condenação. Sinaliza à prática do crime”, argumentou o promotor.
Ainda segundo ele, a irmã de Wanderleia acredita na culpa da acusada. No momento em que o promotor mostrou ao corpo de jurados fotos da cena do crime, e a possibilidade de Priscila ter sido queimada viva, a filha chorou e a família deixou o plenário por uns instantes.
Crime
Inicialmente, o caso foi tratado como latrocínio, que é roubo seguido de morte, pois a polícia não havia encontrado a motocicleta de Neves no sítio, mas o inquérito apontou que o crime foi motivado por vingança.
Motivo do crime
As investigações da Polícia Civil apontaram que o operador de máquinas teria mantido um relacionamento com a mulher acusada de participar das mortes cerca de um ano antes do crime. Ao descobrir o caso, Priscilla, companheira de Adilson, a teria agredido. Irritada com as agressões, a mulher teria contado toda a história para o marido e aos dois irmãos, que ajudaram ela a premeditar os assassinatos.
