
Além de Lavras, mais oito cidades participaram do evento. Organizadores da Moto Romaria Padre Victor, para Três Pontas contabilizaram 300 participantes
Um grupo de motociclistas devotos de Padre Victor participaram de um evento que entrou em seu terceiro ano – 3ª Moto Romaria Padre Victor, beato que foi sacerdote em Três Pontas (MG). O grupo saiu de Lavras com destino à Três Pontas. Integrantes de um Moto Clube de Campo Belo também fizeram o percurso.
O evento foi realizado no domingo (11/12), e os motociclistas se reuniram em frente à igreja Matriz de Sant’Anna, em Lavras (MG), às 6h40, horário programado para a concentração e saída com destino a Igreja Nossa Senhora D”Ajuda. Um grupo de Campo Belo também participou do encontro.
O evento contou com equipes das cidades de Campo Belo, Nazareno, Luminárias, Nepomuceno, Santo Antônio do Amparo e Coqueiral, todos se reunirão em Lavras. No trajeto eles se unirão com motociclistas de Boa Esperança e Guapé.
Os romeiros participaram da Celebração da Santa Missa e receberam as bençãos do Pároco, depois retornaram às suas cidades de origem.
História de Padre Vitor
Francisco de Paula Victor nasceu em 12 de abril de 1827 na cidade de Campanha e morreu no dia 23 de setembro de 1905, em Três Pontas.
Primeiro beato ex-escravo do Brasil
Fonte e fotos: EPTV Sul de Minas
Jovem negro venceu preconceitos e se tornou padre em meados de 1800.
Após vida dedicada aos pobres, ele será beatificado em Três Pontas, MG.
O livro que conta a história de Francisco de Paula Victor, escrito pelo teólogo italiano Gaetano Passarelli, começa com um sonho. O jovem negro, escravo, que passava seus dias na Campanha (MG) do início do século XIX, revela ao seu professor de alfaiataria que queria ser padre. Era um sonho impossível a pessoas como ele à época, mas ter fé é crer no que não é possível. E Victor venceu todos os preconceitos e barreiras sociais, se tornando o primeiro padre ex-escravo do Brasil. No dia 14 de novembro, ele será beatificado pela Igreja Católica em Três Pontas (MG).
O que se sabe de Victor está descrito nos poucos documentos que ele deixou em vida e nas dezenas de depoimentos das pessoas que o conheceram. São histórias passadas de pais para filhos que contam de sua humildade, total dedicação às pessoas, persistência ante obstáculos racistas. O que se pode perceber na vida de Padre Victor é que a fé realmente “remove montanhas”, e um sonho é capaz de mudar a realidade de uma época.
Vida no interior das Minas de outrora

Casarão em Campanha, MG, onde Padre Victor nasceu – em pé até atualmente (Foto: Samantha Silva / G1)
A história de Padre Victor começa em um casarão na Rua Direita da Campanha (MG) de 1827. Foi ali que ele nasceu no dia 12 de abril. O primeiro documento consta que ele foi batizado oito dias depois pelo padre Antônio Manoel Teixeira. Cidade mais antiga do Sul de Minas, àquela época a vila de Campanha da Princesa da Beira reunia fazendeiros em busca de ouro e seus escravos.
Victor nasceu escravo, mas não viveu como um. Veio ao mundo na casa de dona Marianna Bárbara Ferreira, que de forma contrária à época, tratava os escravos da casa com dignidade. Por Victor, o carinho foi maior ainda e ela se tornou sua madrinha. Sob sua tutela, ele aprendeu a ler, escrever, tocar piano, falar em francês. Aprendeu até a sonhar.
O casarão onde Victor nasceu permanece em pé até os dias de hoje. Atualmente a Rua Direita se chama Saturnino de Oliveira e o casarão abriga uma loja de artesanato da família da artista Marisol Garcia da Luz, de 51 anos. Ela e a filha Júlia da Luz, de 34 anos, tomaram como missão preservar a história de Padre Vitor.
Formada em turismo, Júlia chegou a desenvolver um trabalho acadêmico sobre a casa em que mora há uma década.
Segundo ela, o velho casarão colonial só foi alterado em alguns detalhes, após passar por duas reformas. As telhas mudaram para as francesas e foram tiradas as feitas na coxa pelos escravos. As janelas de guilhotina foram substituídas pelas de folha e detalhes de vidro foram colocados nos pórticos das portas. Banheiros que não existiam na época e uma varanda ao fundo foram construídos.
“Quando chegamos, foi uma surpresa. A gente não sabia que ele tinha nascido aqui, o imóvel já estava fechado há algum tempo. Aí a gente percebeu que tinha muita história [para preservar]”, conta Júlia, e continua descrevendo o que sabe. “Dona Marianna era uma mulher de posses. Eles tinham dinheiro, moravam no centro da [vila]. [A família dela] tinha eira e beira.”
A expressão de tempos antigos é explicada por Júlia: eira é o eirado, espaço onde as pessoas secavam sementes, criavam pequenos animais. A beira é o beiral do telhado, e naquela época, ‘beiras’ trabalhadas revelavam um refinamento que só famílias com dinheiro poderiam ter.
“[Victor] teve muita sorte, foi iluminado, nasceu em uma casa com a dona Marianna, que foi a madrinha dele, pagou tudo o que foi preciso, proporcionou tudo o que ele teve”, completa Júlia.
