
Caros leitores, eis minha estreia como colunista do Diário Campo Belo, veículo de informações sobre Campo Belo e cidades circunvizinhas. Cidade a qual passei os 17 primeiros anos da minha vida e que nutro profunda conexão. Amigos para toda uma vida feitos nessa cidade, amizades e relações que ainda cultivo. E como aprecio poder voltar às terras montesas, sempre que possível! A escolha do tema para esta primeira coluna tem relação direta com meu campo profissional, mas minha relação com esta área não tem a ver somente com trabalho, mas de intensa vivência e prazer, com a contrapartida de investimento de um tempo colossal de estudos além de muita luta: falo sobre a música. E já no título, evoco uma classificação diferente. Não optei pela classificação (senso comum) de ‘música clássica’ já que essa classificação esconde uma imperfeição na definição histórica. A definição ‘música erudita’ propõe uma elevação à arte superior, dotada de erudição, com relação às demais. Essa classificação é muito discutida por musicólogos no mundo todo pela problemática que traz: a divisão erudito x popular e suas consequências no campo cultural, estético, filosófico e político.
Por razões óbvias, guardo a discussão desse tema para uma outra oportunidade, aqui, nesta coluna. Escolho pois então a classificação moderna “de concerto”, já que me refiro à um tipo de música, que longe de querer se pretender superior, ocupa as salas de concertos mundo afora, sendo uma música voltada ao prazer introspectivo (seria difícil participar de um churrasco com amigos ouvindo, por exemplo, uma sinfonia de Brahms) e para a concentração, é o que requer esse tipo de música. Mas vamos lá;
As divisões históricas acerca da história da música de concerto (que nem sempre foi de concerto…) ocidentais, hoje comumente se dividem em Música Antiga, Renascentista, Barroca, Clássica, Romântica e Período Moderno. A música Antiga ou, música Medieval, engloba o longo período da Idade Média na Europa, algo em torno do século XIII ou XIV até o Renascimento. Essa música seguia normas rígidas de composição pela Igreja Católica e a grosso modo era uma música voltada ao conteúdo religioso. Ainda assim, compositores daquele tempo utilizavam de seus conhecimentos musicais para compor música não-sacra. Já a música Renascentista expande alguns padrões da Música medieval e começa compor música mais densa. A produção de música não-sacra também aumenta. São nesses períodos que temos Organuns paralelos, Cantos melismáticos e obras compostas conhecidas hoje como Canto gregoriano. Um fato interessante a se mencionar sobre este período é a visão de música que se tinha, completamente diferente à nossa atual. Nestes tempos, a música não era vista como fixa, o compositor intocável, e a obra musical estava em constante mutação. Conceitos como plágio, obra fixa(obra musical notada, escrita em todos detalhes), compositor fixo e único, performance repetida(pense nas inúmeras execuções da Nona Sinfonia de Beethoven em todo planeta), conceito de gênio (tanto do compositor como ‘performer’) dentre inúmeros outros, não existiam. Vale lembrar que a forma de disseminar a música também era completamente diferente, já que a obra musical estava em constante mutação conforme o local e músicos que a executavam, a disseminação de uma música dependia de diversos fatores, e não se espalhava como uma obra fixa e imutável.
A música Barroca compreende um período que vai do final do século XVI até o entorno de 1730. É uma música que aprofunda as características exploradas no renascimento tardio, nas formas musicais. Estabelece o uso formal da tonalidade(usa um centro tonal, ou seja, estabelece uma relação de importância, tensão e relaxamento entre as notas. É a base de toda música Ocidental. Para compreender esse conceito, basta pensar em música não tonal do século XX, ou música modal em que não se tem um centro tonal muito decidido, como por exemplo o canto gregoriano). Esse uso formal da tonalidade estabelece as bases harmônicas da música Ocidental, onde se desenvolvem as formas de encadeamento de acordes, as progressões e a homofonia: uso de melodia e acompanhamento(pense numa voz e um violão acompanhando, por exemplo). No barroco tardio expandem-se formas mais densas na música e desenvolve-se profundamente o contraponto, que explora o uso da polifonia(pense que ao invés de uma voz “solando” e um instrumento acompanhando, todas as vozes são importantes, como num coral onde várias melodias se sobrepõem umas às outras). As formas musicais também são exploradas de diversas formas. Temos as Fugas, que são símbolos do Barroco, que são ferramentas/formas musicais onde o uso de contraponto/polifonia é o essencial. Temos as suítes, que são agrupamentos musicais de várias danças(Geralmente um Prelúdio, seguido de Allemande, Courrante, sarabande, gigue, etc.). outras formas musicais abrangem: Tocata, Fantasia, Forma Sonata, Oratório(música sacra), Missa e Paixão(também formas sacras), Chacona, Passacaglia etc. É neste período também que se desenvolvem as formas instrumentais sem canto, uso preciso da notação musical e exploração do virtuosismo na música. A ópera também se desenvolve neste período. Alguns nomes do Barroco são: Monteverdi, Vivaldi, Haendel, Telemann, J. P. Rameau, Alessandro Scarlatti, Domenico Scarlatti e o mais famoso Johann Sebastian Bach.
O período Clássico engloba o espaço ao redor de 1720 até 1830. Claro que essas definições cronológicas são imprecisas e desconsideram algumas variáveis. Mas tomemos esse período de tempo como genérico. O Classicismo inicialmente tende a romper com a densidade do Barroco, principalmente no uso excessivo de polifonia, onde várias vozes se misturam e diluem em grau de importância, seja na forma vocal ou instrumental(considere a Fuga instrumental). Busca-se maior clareza, uma melodia clara e límpida, com uma harmonia(o uso e encadeamento de sequência de acordes) mais clara e que mude com menor frequência, dando maior liberdade à melodia. É neste período que a forma Sonata se desenvolve. A forma Sonata é uma ferramenta musical para compor música: Usa-se um tema inicial que aparece geralmente logo no começo, que podemos chamar de A. Depois segue-se uma ponte modulante que leva à um tema B(pense por exemplo que se o A for enérgico, rítmico e dramático, o B tende a ser mais terno, melódico e sereno). Após isso ambos os temas são explorados numa seção de desenvolvimento das idéias musicais apresentadas
Finalmente temos a Reexposição onde A e B aparecem novamente seguido da Coda, que é a resolução final dos dois temas contrastantes. A forma Sonata (A, ponte, B, Desenvolvimento, Reexposição AB, Coda) envolve o processo dialético do uso de formas contrastantes em constante luta, até uma resolução final de duas idéias. Na sonata clássica, é dividida em 3 ou 4 movimentos e geralmente a forma sonata está só no primeiro movimento. Então temos um primeiro movimento que segue essa “fórmula” sendo um movimento rápido ou moderado em seu andamento. No segundo, teremos um movimento lento, onde maior lirismo e introspecção são explorados. O terceiro movimento geralmente é rápido, virtuosístico e explora formas como o Rondo (repetição de ideias, sendo algo como A B A C A D A etc). A forma sonata foi predominante no classicismo e usada na forma Concerto, onde um instrumento sola à frente da orquestra, onde esta última apenas “acompanha” o solista (pense no Concerto para piano, Concerto para violino, para violoncelo, etc), a Sonata solo (sonata para piano solo, sonata para flauta, violino etc.) e a sonata de câmara (Sonata para violino e piano, para flauta e piano, por exemplo). A forma Sinfonia é a forma Sonata para a Orquestra, sem que um instrumento solo ou específico seja mais importante. Nomes a se pensar no Classicismo: Clementti, Haydn, Mozart, Beethoven.
O período romântico é o período onde se desenvolvem conceitos que nossa sociedade contemporânea carrega sobre a música. A noção de gênio, de herói, de um compositor inspirado e único são exploradas em todos os campos. A Revolução Francesa, a ascensão burguesa contra o feudalismo e conceitos explorados na Revolução Francesa, como a importância do indivíduo trazem à tona a busca pela expressão individual, pela manifestação do sentimento em detrimento da forma. Rompe-se com as formas tradicionais em busca de expressões individuais, voltadas a expressar sentimentos, a misturar emoções e não buscar clareza e formalidade. A noção do herói, da busca do amor, do ideal de pureza, de luta pela liberdade, trazem ao Romantismo na música a expansão das formas e da tonalidade aos limites. A forma de um recital solo de piano aparece aí com Franz Liszt. Nomes como F. Chopin, F. Liszt, Schubert, Brahms, Grieg, Tchaikovsky, Schumann, Mendelssohn, Berlioz, Mussorgsky, Wagner, dentre inúmeros outros trazem a música à um novo patamar, onde se busca a expressão única. É aqui que se firma o conceito de virtuosismo, com a expansão e melhoria técnica dos instrumentos faz com que o virtuosismo atinja seu grau limite com Paganini no violino, e Chopin e Liszt ao piano. Esse virtuosismo denota certo heroísmo ao performer, ao instrumentista que consegue vencer qualquer obstáculo e é capaz de executar qualquer coisa em seu instrumento. E o compositor atinge seu grau máximo de independência, se tornando uma entidade pura onde sua obra deve ser respeitada ao máximo. É aqui que a obra musical se torna definitivamente fixa. Isso já ocorria no classicismo mas aqui se firmam as estruturas com o desenvolvimento dos Conservatórios tal como conhecemos hoje, o uso de notações altamente específicas na partitura, tudo para garantir a máxima fidelidade ao texto musical. A forma da música se diluiu também na expressividade explorando novos caminhos chegando-se ao limite da tonalidade.
O período moderno, após o romantismo, buscou expandir os horizontes para novas possibilidades, citando de passagem Debussy e Ravel, como expoentes de uma música que busca explorar novos elementos para além da Harmonia(o uso dos acordes na relação ‘tensão-relaxamento’). Busca-se o uso de cores através de exploração da dinâmica e timbre dos instrumentos e a busca por sensações longe do espectro de apenas a narrativa tensão-relaxamento. Temos também a expansão por caminhos onde a tonalidade não existe mais, buscando explorar a música por caminhos onde a harmonia (tensão-relaxamento) não importa mas sim as dissonâncias. Aqui temos A. Schoenberg, Stravinsky, etc. Nomes como Prokofiev e Shostakovich ainda conservam certo tonalismo em suas obras mas com elementos muito modernos. Compositores como Rachmaninoff seguem a linha de não se conectar ao modernismo ainda escrevendo música romântica no século XX.
O modernismo é muito difuso na música e os caminhos da música contemporânea também são bem densos, tendo inúmeras correntes. Para citar alguns nomes: P. Hindemith, Ligetti, Lutoslawski, P. Glass, todos eles de inúmeras vertentes.
Para escutar (busque por gravações online no Youtube,copiando e colando os títulos e compositores. Por isso usei os títulos em inglês com o performer-sendo orquestra, pianista, regente, cantor,etc- à frente para se ter acesso à uma performance de qualidade):
Barroco – Monteverdi, L’Orfeo. Bach – English Suite, executada por Glenn Gould – Bach – St. Mathews Passion(A paixão segundo São Mateus) Clássico – Mozart – The Magic Flute Vienna Philarmonique. Piano Sonate Kv 330 Zimerman Haydn – Symphony 94 – Bernstein – Beethoven – Sympnhonie 5, 6, 9 Berlin Philarmonique, Piano Concerto 4 – Zimerman – Piano Sonata op. 57 Claudio Arrau. Piano Sonata 32 , op. 111 E. Kissin – Cello Sonata op. 5 Argerich Maisky Romantismo – Mendelssohn – A Midsummer Night’s Dream Overture Op.21 by Masur, LGO Schubert – Lieds erlkönig, Die Forelle,. Quintet trout. 4 Impromptus op. 90, Maria João Pires Schumann – Carnaval op. 9, Nelson Freire. Kreisleriana, Maurizio Pollini, Piano Concerto Chopin – Piano Concerto 1, Zimerman, Preludes Pollini, Etudes Freire – Liszt – Transcendental Etudes, by Arrau. La Benediction de Dieus dans La Solitud by Arrau Tchaikovsky – Piano Concerto by Argerich – Brahms – Piano Quartet in g minor – Moderno Debussy – Prelude a l’apres midi un faune. Preludes by Zimerman Ravel – Daphne et Chloe Suite by Osawa. Piano Sonatine by Pascal Rogé Rachmaninoff – Piano Sonate 2 by Grimaud. Piano Concerto 3 by Argerich Prokofiev – Piano Sonate 7, by Sokolov Stravinsky – Rite of Spring, by Gergiev Schoenberg – Piano pieces by Pollini
Sobre o autor
Alessandro Andrade Fonseca é pianista. Bacharel em piano pela UEMG, cursa o segundo ano de seu mestrado em ‘piano performance’ pela University of Oregon, estudando sob a orientação de Dr. Alexandre Dossin. É um apaixonado não só por música, mas arte, cinema, leitura (especificamente filosofia e história).
