

Família acredita em negligência da rede pública. A menina teve que fazer uma histerectomia completa e nunca poderá gerar um filho. Na UPA e na UBS teriam tratado o caso como infecção urinária.
Os olhos cheios de lágrimas representam alegria e sofrimento. Alegria por ter tido a vida salva. Sofrimento por nunca poder realizar um sonho: ser mãe de gêmeos. Aos 17 anos Claudielly Moreira Salgado já têm experiências tristes para contar. Há um ano, a adolescente procurava assistência médica na UBS da Feira em Campo Belo MG. Ela apresentava fortes dores abdominais e, algumas vezes, hemorragia. Sem atendimento pelo SUS, sequer uma ultrassonografia teria sido solicitada, uma amiga da família procurou uma médica da rede particular, que atendeu a paciente sem cobrar. Ela acionou mais três médicos e descobriram que a infecção ou suposta gravidez (teria sido dito no posto de saúde), na realidade, era um tumor de três quilos. Ela foi submetida a uma histerectomia: cirurgia de retirada do útero e dos ovários. Todos enviados para biopsia. A cirurgia foi realizada em Alfenas (MG). Dois vereadores da cidade e um deputado também teriam sido procurados para ajudar na transferência, mas não teriam retornado o contato. Segundo uma amiga da família, uma emissora de rádio também não cedeu espaço para apurar a notícia.
De acordo com Alzira Correa (amiga da família), o abdômen de Claudielly inchava durante um período e depois voltava ao normal. Em maio acentuou a dor na região pélvica e o inchaço. Iniciou rotina de idas e vindas frequentes à UBS (Unidade Básica de Saúde) e à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) desde o dia 06 de maio. No dia 18 foi o ápice. Ela procurou a Unidade Básica e não teria sido atendida pelo falecimento do prefeito da cidade. Antes disso, ela chegou a procurar à UPA após sair da escola chorando pelas fortes dores e teria sido tratada com desprezo. Sempre os mesmos medicamentos (buscopan e soro). Fizeram um hemograma e exame de urina. “Falaram que era cistine e o exame teria sido jogado no lixo do hospital. Depois me deram alta,” relembra Claudielly.
No dia 19, Alzira e a irmã, Vanda Maria Reis procuraram dra. Raquel Perrupato (ginecologista da rede particular) e explicaram a situação, e que eram carentes. A médica não cobrou a consulta e ainda chamou uma colega (dra. Kelly Alves e o marido dr. Fabrício Campos – cirurgião) ambos avaliaram o exame de imagem e perceberam se tratar de um tumor. “Minha barriga estava tão inchada semelhante a uma gestação de 6 meses. O tumor naquele dia pesava 1.3 Kg e eu estava com muita dor. Me internaram na Santa Casa da cidade, até sair uma vaga para a cirurgia,” disse a jovem.
Dia 22 de maio, internada na Santa Casa de Campo Belo, a amiga da família (Alzira) começava outras lutas: ligou para o deputado majoritário para ajudar na transferência (Duarte Bechir) e não conseguiu; foi atrás dos Vereadores Flávio Bechir (Flavinho) e Marilena Neves dos Passos (Leninha), mas, sem êxito.
Descobriu que o caminho era cadastrar no SUS Fácil para a Santa Casa de Alfenas. A vaga não saía e a agonia aumentava. Dr. Ely Ferreira da UPA cedeu o encaminhamento indicado pelo hospital Bom Pastor em Varginha (MG).
Desesperada, a mãe da garota (Claudia dos Santos Moreira) entrou em uma igreja. Ela acredita que a fé tenha aberto portas; “Naquele momento meu filho entrou no Templo e disse que a vaga havia saído. Uma paciente agendada desistiu da cirurgia na hora e chamaram minha filha. Foi a mão de Deus.” A família vai recorrer à justiça.
►O outro lado
A Secretaria Municipal de Saúde de Campo Belo justificou desconhecer o caso. A Secretária recebeu a reportagem na manhã desta quarta-feira (03) e disse que o relato será apurado. Pedirá à UBS o prontuário e verificará as internações de Claudielly Santos na UPA, tomando as medidas cabíveis. O prontuário da adolescente está na Unidade Básica do bairro que a atendeu, mas não foi fornecido à reportagem por pertencer à paciente. Lembrando que em outra ocasião (o caso do menino Raley de 10 anos, em fevereiro de 2015), a Assessoria de Imprensa da Prefeitura divulgou o prontuário do menor, contendo assinatura da mãe dele, em redes sociais e teria sido fornecido pela coordenação do Postos de Saúde de Campo Belo, segundo ela mesma, divulgou à época.
Quanto aos vereadores mencionados, Leninha não estava na Câmara no momento em que a reportagem foi apurar o caso. Flavinho alegou ter avisado à senhora Alzira Correa que o procedimento era responsabilidade do SUS Fácil.
