

Por: Alessandro Fonseca
Sobre o autor: Alessandro é pianista, bacharel em piano pela UEMG, terminando seu mestrado pela University of Oregon e já ingressando no doutorado, recentemente aprovado, em piano Performance, também pela University of Oregon. É também um apaixonado por filosofia, tem como hobby aikido, xadrez e estudo das ciências humanas para observação da política.
São tempos sombrios para o Brasil, Grécia, e países do continente africano, e até para os Estados Unidos, enfim, para o mundo. Quisera eu poder falar de música, mas hoje as circunstâncias clamam por uma manifestação diferente por aqui. Enquanto o mundo se degladia em virtude de uma crise econômica que estourou nos idos de 2008/2009, a crise política e institucional se faz aumentar, mesmo onde poderes se confrontam abertamente. Em meio à todo essa confusão as pessoas têm procurado se informar e tomando posicionamentos. E é sobre isso que eu pretendo discorrer.
Os discursos englobam narrativas que procuram explicar os fatos, apresentar os meandros de um determinado acontecimento, encaixar os elementos da história e produzir uma visão de mundo. Visão essa que leva inexoravelmente à busca de uma solução, seja essa proposta aberta ou apenas por meio das entrelinhas. Essa velha forma de organizar as narrativas foi brilhantemente analisada por um historiador estadunidense, Hayden White, em sua obra “Metahistória” (traduzido e editado para o português em 1995). Nesta obra White mostra como um acontecimento histórico é organizado (num resumo muito simplista já que faço apenas um ensaio em que o foco é a política atual, e não essa obra citada):
1 – Organização cronológica – divide-se e recortam-se os fatos históricos a fim de dar o sentido temporal, com início, meio e fim.
2 – Estória – Aqui se inserem os elementos da narrativa englobados na organização cronológica. A partir disto surgem as perguntas “Como e por que?” determinados eventos ocorreram, e “Qual a causa?. Isso nos conduz invariavelmente ao terceiro elemento.
3 – Modo de organização da narrativa – A forma de organizar os elementos da estória a ser contada nos dirá as possíveis inclinações de como explicar as perguntas anteriores, “Como?, Por que?, Causa?”.
4 – Modo do argumento – Aqui, após organizar a narrativa, surge o argumento que vai embasar os mecanismos analisados no terceiro elemento.
5 – Conteúdo ideológico – Aqui vem todo o brilhantismo dessa obra. Todo argumento vem carregado de uma bagagem cultural, filosófica e que englobam uma visão de mundo, seja a dominante, seja a marginal. Toda narrativa traz consigo a visão daqueles que a construíram nessa organização dos fatos, eventos e pessoas envolvidas. E era aqui que queria chegar pra realmente iniciar meu ensaio.
Quando um fato é trazido à tona, e junto com ele suas explicações e possíveis soluções, essa visão traz consigo invariavelmente um conteúdo ideológico, pois sim, tudo é ideologia. Toda narrativa construída para formular um discurso exige previamente uma visão de mundo e um conteúdo filosófico que justifica a construção daquele fato e conduz aos “Como aquilo aconteceu, os porquês e as possíveis causas”. Todo discurso traz um conjunto de ideias que são em si a defesa de um determinado tipo de ideologia. Seja ela dominante ou não. Mas ideologia como um conjunto de ideias que se propõem a ser uma visão de mundo, ao mesmo tempo que uma análise através de um dispositivo filosófico, cultural, histórico, etc.
Outro pensador que analisou como a construção histórica dos fatos é afetada pela ideologia foi Walter Benjamin, em várias obras. E é a partir disso que analisamos a História como a história dos vencedores. E como essa muitas vezes pode esconder a realidade. Pois conhecemos o discurso, a narrativa daqueles que viveram e tiveram o poder de contar. Uso como exemplo aqui Silvio Santos. Sua história como foi de camelô a um mega empresário de sucesso pode carregar a narrativa de sucesso pessoal como uma forma mostrar como o trabalho árduo pode ser recompensado. Mas a questão é quantos outros camelôs trabalharam arduamente e nunca conseguiram nada? E não tiveram voz jamais pra contar sua história, pois eram os marginalizados da narrativa.
A negação do conceito de ideologia ou a exigência da famosa imparcialidade traz consigo o perigo da imposição totalitária de uma ideia. Explico: quando se exige imparcialidade, se exige a ingenuidade de se livrar de todo discurso ideológico, o que por natureza humana, é absurdo. Toda forma de organizar uma narrativa traz invariavelmente escolhas de visão de mundo e quem tem o lado vencedor e perdedor. Quem será admirado e odiado naquele discurso. Quando se exige imparcialidade, se comete primeiro a ingenuidade de querer ser neutro. E essa neutralidade não é possível, afinal, um fato histórico, um discurso político e uma narrativa social, são fatos HUMANOS. Assim sendo, eles não são puros e neutros podendo ser observáveis como um fenômeno natural e científico como a análise de um evento climático. Justamente por serem humanos e envolverem agentes humanos, estão diretamente conectados às escolhas de narrativas, de visões de mundo que determinam as suas ações.
Através dessa ingenuidade da necessidade de requerer a neutralidade, a imparcialidade, surge a imposição totalitária do argumento. Isso acontece porque ao se exigir a neutralidade, quando se busca uma narrativa que contraria radicalmente os discursos dominantes do poder, essa narrativa que rompe radicalmente com o poder em questão, é considerada frequentemente radical demais, portanto muito tendenciosa. E logo é excluída. E é aí que o poder, o discurso que já dominava se firma ainda mais. Ao exigir a neutralidade de opinião, se defende o status quo, o poder estabelecido, mantém-se o discurso vencedor, porque questioná-lo seria tendencioso. Toda neutralidade favorece historicamente o poder estabelecido, porque a imparcialidade, ingênua por si só, não é capaz de escolher um lado. Ao fazê-lo, mantém -se as estruturas de poder como são, porque resolve nada fazer, para não ser tendenciosa.
Toda narrativa envolve a construção de uma verdade, um conhecimento. A história do conhecimento, como analisado pelo pensador francês Michel Foucault, não é a história da verdade em si, mas da construção de narrativas pelo poder. Se constrói uma ideia e um corpo de conhecimento para se defender um discurso, que por sua vez é poder. E justifica poder. E é aqui que clamo: sim, precisamos escolher um lado. E para tal, devemos pensar nesses conceitos. A construção da verdade, do conhecimento, não em si, mas seu corpo de significados, como poder. E a partir disso temos breves questões: quem produziu tal discurso?
E a QUEM ESSE DISCURSO favorece? A quem interessa aquele corpo de ideias? Que grupo defende essa ideologia? E aqui continuo com uma posição: não acredito que a realidade possa ser reconstruída por pós verdades, por desconstruções infinitas, a fim de destruir o poder. Aqui esbarraríamos na ingenuidade da neutralidade. Precisamos vencer as narrativas dominantes daqueles que detém o poder mas observando dados e anos de história e ciência humana produzidos. Temos dados, estatísticas e uma infinidade de coisas pra buscar para que tomemos uma posição. Mas sempre pensando: A quem esse discurso/ideologia/narrativa atende? E o que as narrativas históricas apontam? E quais as versões e conteúdos ideológicos por detrás das mesmas? E aqui caímos naquela velha dicotomia entre direita x esquerda. E não é possível a ingenuidade da terceira via. Explico o porquê: basicamente a visão da economia da esquerda vê que o trabalho é a fonte de toda riqueza, e a partir daí um corpo gigantesco de conhecimento foi produzido a mostrar como trabalho gera valor e como o acúmulo de grandes lucros e fortunas são feitos pela exploração do trabalho alheio. A direita não aceita esse conceito e clama que o mercado em sua infinita plasticidade produz a riqueza através das flutuações de mercado, da habilidade do vendedor, etc. E a partir disso, decisões econômicas e políticas são tomadas, com consciência ou não destes conceitos. Num próximo texto vou explorar alguns desses conceitos mais a fundo e me concentrar em temas polêmicos, me posicionando, claro.
Referências bibliográficas
WHITE, Hayden. Metahistory. London: The John Hopkins University Press, 1973. 464 p.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organizaçao e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
